Criança, queria que meu nome fosse Camila. 6 letras. Pouca chance de erro de lembrança ou grafia. Ninguém para corrigir, repetir todas as vezes “Não é Cristiane, é CristianA”. Aprendi de muito cedo a acomodar o erro do Outro. O esforço e o cansaço de apontar o certo superava a vontade de corrigir quem fosse. Passei a relevar, inclusive, pessoas queridas que se equivocavam “Chama de Cris que não tem erro." Ou, a usar como divisor de águas para desconhecidos que queriam algum tipo de interação ou aproximação, sem se preocupar em acertar ao menos o meu nome.
Acomodar o erro do Outro.
Repito hoje, em voz alta, para entender de vez que no longo prazo isso nos define. Esperam que sejamos cordatos. Que aceitemos deselegâncias, que não levantemos nossa voz para dizer "Não é Cristina, é CristiAna". Que não contrariemos ninguém nem para corrigir nosso nome.
Assim, deixamos os outros confortáveis. Imóveis. Sem a noção de que podem aprender, evoluir, dar o primeiro passo. Absorvemos, de nome em nome, o incômodo. De incômodo em incômodo, outros nomes.
O que está em um nome, você me pergunta. No meu, absolutamente cristão, uma agnóstica. Que se desconte a religião, está associado à pessoas leais, compassivas, bondosas, generosas e com um forte senso de esperança e amor. Sempre boa não sou como ninguém o é — e para isso está aí o perdão —, mas o “suficientemente boa”, tenho certeza. Sei tolerar até o limite do intolerável. Cultivei décadas de paciência.
Adolescente, ganhei do meu pai um cartão que dizia “Leoninos são fáceis, especialmente quando os contras estão a favor”. Nunca fiz sentido da frase porque a vida (ainda) não me sorriu a era dos favores. Ou serviu e recusei por não saber.
Por ora, caminho a linha tênue da candura que me resta. Uma raspa de tacho de paciência que insisto em deixar de provisão até para aqueles que me reconhecem pelo nome que nunca tive, por aquilo que nunca fui.
Isso tudo pensei a caminho da última visita que fiz a um terreiro em BH, com uma amiga querida.
Cristiano, o Uber, para o carro, olha para o portão do local e diz: “Boa gira”.
O caboclo cobre minhas pernas de fora na camisola improvisada de vestido, pergunta o que tanto carrego naquela dor, diz manso “A gente só dá o que tem. Ser cristalina é valioso, mas só para quem enxerga através e além dos cortes do cristal”.